"Corpo sobre Tela" O paradigma de Marcos Abranches sobre arte e Dança.

April 9, 2018

 Foto: Gal Oppido

 

Entrevista com o coreógrafo e dançarino Marcos Abranches

 

Pela primeira vez em Curitiba, o coreógrafo e bailarino Marcos Abranches, veio emocionar o público com seu espetáculo Corpo sobre Tela durante o Festival de Curitiba. Com paralisia cerebral, ele começou a dançar quando tinha 18 anos. O desenvolvimento artístico entrevistou esse grande artista.

 

Como começou sua descoberta com a dança?

A dança eu conheci através do meu padrasto. Ele me levava para assistir alguns espetáculos na cidade (São Paulo). Todo espetáculo eu sempre sentia alguma energia me chamando. Eu saía do teatro tão feliz, tão realizado. Um dia eu estava num coquetel, o Sandro Borelli pediu o meu contato. A gente combinou um encontro e uma gravação de uma poesia de Augusto dos Anjos. Ele me convidou para assistir os ensaios, e essa gravação nunca acontecia. Depois de certo tempo, o Sandro me perguntou se eu gostaria de fazer um teste para atuar em cena. Aquele dia minha vida mudou completamente. No dia seguinte, começamos a ensaiar, quando eu percebi, já estava nesse mundo novo. Trabalhei com ele durante quatro anos, quase cinco. Um dia, tive muita vontade de conhecer outros caminhos da dança, outras técnicas, não só no contemporâneo, aonde o Sandro foca muito. Eu queria descobrir outras linguagens.

 

Como foi seu primeiro processo de criação?

Em 2007 eu comecei meu processo de criação, queria ser também coreógrafo, não só dançarino. Eu queria colocar a minha maneira de enxergar a dança e a arte. Comecei meu primeiro trabalho chamado D...equilíbrio, baseado no livro e filme O bicho de sete cabeças. Foi um ano de processo de criação até que eu consegui colocar no mundo da dança com minha própria direção.

 

De onde surge a idéia do Corpo sobre Tela?

O Corpo sobre Tela é um desejo da infância. Quando eu fui criança sempre tive muita vontade de pintar. Minha mãe fazia curso de pintura e eu ficava assistindo ela desenhando. Ficou uma vontade muito grande de pintar, mexer com as cores, mas por falta de tempo e oportunidade, nunca tinha feito um curso de pintura. Aí um dia eu pintei a janela do meu quarto. Peguei uma lata de tinta, um pincel e comecei a pintar. Quando terminei, eu estava mais pintado do que a janela. Ficou todo branco meu corpo. Esse dia ficou muito marcado para mim. Resolvi criar um projeto juntando a pintura com a dança contemporânea. No meio desse processo o que me deu mais motivo e força para colocar em cena foi uma descoberta da obra e vida do pintor Francis Bacon. A história de vida dele é muito parecida com a minha. A gente tem muita semelhança. Foi um ano de processo de criação e pesquisa em parceria com a Secretária de Cultura de São Paulo que nasceu esse projeto em 2013.

 

Conte um pouco sobre o espetáculo, o que você quer passar, o que é o Corpo sobre Tela?

O meu foco é destruir o belo, a normalidade. O que é normal e o que é não normal? Francis Bacon e eu também focamos na figura para o figurativo. A transformação da amplitude de uma dança é uma linguagem que meu corpo abraçou. A minha pesquisa na dança é justamente isso, é provar que não tem um corpo como todo mundo fala: deficiente. Meu corpo não é deficiente. Meu corpo é artístico. Deus criou o meu corpo para dançar, para ser um artista, não um deficiente pelo lado negativo que nossa sociedade coloca. O Corpo sobre Tela me trás muita alegria, liberdade de colorir, não só colorir como forma de pintura. Colorir na forma de pensamento, o mundo ainda está muito escuro. Podemos colorir na maneira de pensar. Como olhar para o artista que tem alguma diferença. Então o Corpo sobre Tela me dá um grande motivo para colorir em forma de arte.

 

Como foi sua estréia no Festival de Curitiba?

Foi uma super energia muito especial. O melhor espetáculo que fiz foi ontem, do Corpo sobre Tela. Foi tudo redondinho com uma equipe do Festival super incríveis. Além de um público maravilhoso, faltaram 10 pessoas para lotar. Vieram 290 pessoas, foi super emocionante. Porque, é uma troca, o artista com o público, o público com o artista.

 

E o cenário, quem criou?

Francis Bacon passou grande parte da vida dele dentro do ateliê. O ateliê vira um palco. Nosso ateliê, aonde eu me sinto na minha casa. Quando a gente monta um cenário e cada obra, cada pintura que a gente pendura, são memórias de outros momentos especiais com o espetáculo.

Em cada espetáculo nasce uma nova obra.

 

E é feito pelo seu próprio corpo?

Pelo meu próprio corpo. Na verdade eu sinto que todo espetáculo eu me entrego de corpo e alma pro Francis Bacon poder me pintar. Eu me sinto um pincel na mão do Francis Bacon. Ele, pra mim, está sempre junto, sempre presente em algum lugar do teatro.

 

 

 

 

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